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14.1.05 02:48 5v

O sono e o tempo

Após dormir por horas no esconderijo improvisado que conseguiram, bem no centro da cidade, com a tensão da guarda circulando por todos os lados - mas sem necessariamente vê-los -, ela acordou desnorteada. Sentiu angústia, medo e ansiedade ao notar-se fora de casa, do conforto e proteção que sempre a cercou sem que ela notasse.

A falta de tudo aquilo acentuava a situação em que se encontrava: sem-teto, correndo dos policiais junto com um sujeito estranho e que ela não conhecia, nem de nome. Sabia apenas que ele tinha salvo sua vida - mas preferia não lembrar, não pensar nisso.

- É bom ver você acordada. Desculpe tudo que você tem passado...

Sentiu imediata atração, respeito e pena por ele. Sua voz transpareceu a honestidade das palavras e isso a comoveu, seja por estar totalmente abalada e fora de seu elemento, seja por ser um daqueles poucos momentos em que nos vemos perto de pessoas que realmente... "fazem diferença".

- Não se desculpe. Mesmo.

Em um impulso, quase tomou as mãos dele para acalentá-lo, mas viu-se interrompendo o movimento, temerosa de como ele receberia essa demonstração de carinho e gratidão.

- Você salvou minha vida, mais de uma vez. Quem tem que pedir desculpas aqui sou eu.

Notou nos olhos dele uma tristeza que não era normal, como alguém que não vê saída para uma situação que envolve tudo aquilo que mais lhe é caro. Havia desespero, desencontro, angústia e confusão no olhar dele.

- Escute, não podemos ficar aqui, estamos bem no centro e...

Com um movimento, ele a fez calar. Seu olhar mudou e ele era agora uma pessoa decidida, que sabia o que fazer e para onde ir.

- Não, aqui é o melhor lugar. Estão procurando por nós próximo a fronteira, que foi onde nos perderam. Devem imaginar que saímos da cidade. Se continuarmos aqui, parados, teremos uma chance.

Sim, mas por quanto tempo, ela se perguntou. Quanto tempo aguentariam a imobilidade e o receio, quanto tempo seus nervos aguentariam a tensão de ser descoberta - e morta - a qualquer momento? Mas algo nos olhar dele, naquela nova certeza encorajadora, a acalentou. O sono a dominava novamente e ela se deixou levar: nada melhor que a combinação de sono e tempo para afastar sua dor e seu medo.

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2000-2010 Fernando da Silva Trevisan