Bate o livro e olha para o teto do quarto, sem realmente ver. Preso! Atado miseravelmente a essa realidade fria, objetiva, prática.
Fecha os olhos para ver, ainda que apenas por momentos, as imagens que povoaram sua imaginação: deuses em luta, entre si, contra demônios, contra humanos. Traições e surpresas, vidas perdidas, lágrimas e ranger de dentes. O pôr-do-sol mais lindo, inexistente decerto em sua realidade, onde todos aqueles tons no céu ao mesmo tempo?
Baixinho, ora, pede, intercede diretamente à Deus, aos deuses, demônios, a quem estiver ouvindo: eu quero. Mesmo que seja temível, que o amanhã seja totalmente incerto e que seja como caminhar no meio da rodovia, ao invés da segurança da calçada. Eu quero.
Abriu os olhos para o céu com estranhos tons de creme e azul, onde duas luas brilhavam em um pôr-do-sol que jamais conseguiu imaginar, nem em suas melhores leituras.
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