A DESCOBERTA
Rodrigo ajoelhou-se, uma gota de frio suor escorrendo no rosto. Juntou as mãos naquele que, suspeitava, era um gesto que ninguém mais repetia em todo o mundo. Fechou os olhos - embora não soubesse se era assim que os antigos faziam, imaginava que sim. Como falar com alguém superior, como falar com um ser que a tudo criou em mistério, que durante os séculos de triunfo e dominação humana, mantinha baixado o véu sobre nossa origem e destino?
A "teoria de tudo" que nunca foi conseguida frustrou cientistas primeiro, governos depois e população por fim. Centenas de anos e ninguém ainda conseguia entender como relacionar e unificar a mecânica quântica com a relatividade. Porém, no rastro de pesquisas frustradas, descobertas úteis: materiais novos, sintetização de elementros biológicos... o ser humano havia dobrado e desdobrado a criação, mas ainda não conseguia dominá-la, apenas manipulá-la. Hoje, até as piadas sobre as falhas dos cientistas já eram história. Dizia-se: política, futebol, mulher e a teoria de tudo não se discute.
Baixinho, como se não quisesse ser ouvido - na realidade sabendo que seria ouvido mesmo que nada dissesse - Rodrigo rezava. O próprio termo havia sumido junto com as religiões, que agora constavam apenas em livros de história. As crianças estudavam-nas e sabiam que elas cumpriram papel importante na evolução humana, criando comunidades onde antes haveria apenas brutais disputas de poder. Dando sentido e continuidade a um grupo outrora sem nada que o identificasse, porém, ao mesmo tempo, sendo cada dia mais culpadas por guerras, sacrifícios, terrorismo... no final das contas, por mortes.
Após rezar, Rodrigo orava. Pedia a Deusalá que trouxesse o nirvana, que não permitisse à raça humana chegar ao apocalipse da unificação, ao fim de tudo. O arrebatamento não era próximo, como previam os escritos mais antigos que ele encontrara, mas queria acreditar que ainda viria - e que ele estaria entre os escolhidos - se não fosse o único dessa geração tão tecnológica e esquecida do passado.
Ao terminar, Rodrigo cuidava de retirar os pesados tapetes e cortinas que distribuía por sua acomodação, a fim de prevenir câmeras e escutas - ilegais porém comuns. O estado inexistia na forma como havia existido nos tempos dos antigos, mas as corporações não relaxavam a vigilância de seus comandados. Suspirou, sabendo que aquele seria mais um dia tenso na Biblioteca Universal, com o contrabando de itens proibidos aumentando, sua função ficava cada dia mais sob vigilância. Para piorar, estava ele mesmo contrabandeando e lendo às escondidas os livros religiosos dos antigos - as várias "Bíblias", o Alcorão, livros sobre o Buda.
Indo para seu cubículo de trabalho em sua acomodação, pensou que deveria dobrar o cuidado com seus acessos. Refletia se era mais seguro copiar as obras ou apenas acessá-las para leitura. Se não copiasse, poderia argumentar que apenas desejava estudar - caso fosse pego com cópias, seria certamente indiciado contrabandista. Seu terminal de trabalho já estava acordado da hibernação que o tomava toda noite - era para impedir as temidas horas-extras que os patrões não permitiam aos terminais continuarem funcionando após a jobhour de trabalho. Uma mensagem o aguardava:
"Bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal". Estava assinado: "Enos".
Ficou olhando a tela por longos minutos refletindo sobre a mensagem, sobre a assinatura. Enos, o filho de Set, neto de Adão e Eva. Aquele que iniciou a invocação do nome de Deus. Resolveu rastrear a mensagem, afinal, era um consultor de tech-security, pago para rastrear e resguardar os arquivos proibidos da Biblioteca Universal. Colocando seu programa verificador-automático para funcionar, a fim de enganar os patrões de que estava trabalhando, começou a pesquisar a mensagem.
Quatro horas depois, a frustração o dominava. Não apenas não conseguia rastrear a mensagem como havia descoberto um padrão, algo emergente por trás dos diversos nós e servidores utilizados para despistar, que não conseguia decifrar. Precisava parar e fazer algum trabalho de verdade ou em breve seria pego pelos fiscais. Contra sua vontade, parou a busca e "trabalhou" até o final da jobhour, especialmente cobrindo seus rastros. Quando o alívio do dia de trabalho estava para acabar deparou-se com algo estranho: mais alguém não autorizado havia acessado um dos livros proibidos - e justamente a Bíblia.
Não podia ser coincidência. Resolveu separar esses dados para o terminal doméstico em sua acomodação - era, obviamente, proibido de copiar e enviar dados da rede da B.U. para outras redes porém, sendo quem era e no cargo em que estava, não era difícil driblar os mecanismos que conhecia tão bem. Depois, poderia comparar com os dados da busca por Enos que também estava copiando, a fim de verificar se o padrão que suspeitara realmente existia. Não deixava de sentir uma emoção primitiva, que jamais havia sentido, neste ato ilegal de cópia e de procura. Até o momento, havia utilizado apenas o terminal de trabalho para suas leituras. Agora, havia como rastreá-lo até sua casa, ou assim acreditava. Por melhor que fosse, sabia que devia existir alguém melhor. Na realidade, Enos era melhor.
RECONHECENDO O PADRÃO
Durante dois longos dias Rodrigo apenas trabalhou, buscou Enos e seu padrão e fez suas preces. Na empolgação, quase esquecia as preces ou a sleephour, uma coisa influenciando na outra. Tinha decidido não responder, simplesmente, a mensagem - até por que seria impossível - a conta de envio não existia, tinha sido criada e deletada, apenas para enviar-lhe a mensagem. Consultou os logs do servidor e viu que a operação toda não havia durado nem sete minutos. Tinha certeza que a única forma de responder a mensagem seria encontrando o padrão, decifrando-o.
Ao final do segundo dia após receber a mensagem, ele estava cansado. Olhava a tela e seu cérebro dizia: aqui existe um padrão, está quase. Mas não vinha. Decidiu deitar no divã que tinha na sala e descansar. Sabia que seu servorobot avisaria se ele adormecesse ali além da sleephour e portanto, deitou-se, com os nós, servidores, endereços IPv10 e mensagens bíblicas brincando em sua mente, tentando encaixar o padrão de que precisava para a resposta. Dormiu.
Acordou exatos dois minutos antes do servorobot ativar os procedimentos para despertá-lo. Levantou-se sorrindo e correu ao terminal da acomodação, sabendo exatamente onde procurar. É claro, a resposta lhe viera em sonhos, como as revelações que eram dadas aos antigos pelo Senhor. Teclou até obter uma visualização da rede de servidores da área que, há centenas de anos, era chamada de Israel. Começou por eliminar os servidores de grande atividade e os públicos - seriam apenas despiste. Ele sabia que Enos estaria em algum servidor aparentemente inativo - mas que, na realidade, era ativíssimo, distraindo suas ações por meio de conexões "ping" para outros servidores - ignoradas pela listagem de tráfego.
Conforme ia aplicando os filtros, sentia o suor na fronte e o cansaço dos dias de busca. Em nenhum momento duvidou da mensagem "recebida", nem pensou que poderia haver explicações "científicas" para seu cérebro ter encontrado o padrão quando ele estava em repouso, disfarçando esse resultado como mensagem divina devido aos seus estudos e inclinações. Portanto, quando ficaram apenas 10 servidores na tela, todos aparentemente inativos, ele apontou, sem duvidar de si por um momento sequer, para o MirabilLis, localizado em Israel, que tinha como proprietário eterno VardiGoldfingerVigiserAmir. Não conhecia um nome deste quilate nem nos antigos, porém não duvidou que fosse de algum profeta ou enviado sobre o qual não houvesse lido ainda.
Imediatamente, iniciou os procedimentos para invadir o servidor. O trabalho ali foi relativamente fácil e ele teve um momento de dúvida: tanta dificuldade para chegar e agora aquela facilidade? Mas, assim que começou a listar diretórios e arquivos do servidor, entendeu. Havia apenas um arquivo fora do lugar com o nome joao8_8.txt, vazio. Sabia que a resposta deveria ser escrita ali, mas não tinha acesso à Bíblia para poder consultar o trecho e ficou forçando a memória em busca do que significava, com o arquivo aberto em tela. Enquanto pensava, o sistema avisou que o arquivo havia sido modificado por outro usuário e se ele queria carregar a alteração ou salvar o arquivo na condição atual. Optou por carregar a alteração:
"Inclinando-se novamente, escrevia na terra."
E então lembrou-se: era a passagem da adúltera, que estava para ser apedrejada e o Cristo a perdoava, depois que todos desistiam de apedrejá-la por terem, eles mesmos, diversos pecados. E o que isso queria dizer? Seria Enos uma espécie de "super-fiscal", que havia pego meus estudos mas perdoado? Ou seria um grupo de pessoas que se encontravam escondidos, liam e estudavam religião? Decidiu não se apegar a esses detalhes e responder:
"Ai daqueles que copiam o Livro, (alterando-o) com as suas mãos, e então dizem: Isto emana de Deus, para negociá-lo a vil preço. Ai deles, pelo que as suas mãos escreveram! E ai deles, pelo que lucraram!"
Alterou o nome do arquivo para 2_79.txt e aguardou. Veria, agora, com que tipo de gente é que ele estava lidando.
(continua...)
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Caminhava no gramado, extasiada com o perfume das flores, os cabelos loiros cacheados brilhando ao sol, balançando à brisa - o dia chegava ao fim nos jardins do Museu do Ipiranga, em São Paulo.
Desgarrada da excursão, ela foi visitar primeiro aqueles jardins tão bonitos. Caminhou e dançou entre as flores, junto aos chafarizes e estátuas, como se fosse uma ninfa em algum ritual de saudação à natureza, à primavera ou à algum deus ou deusa. Deu a volta observando como o jardim contrastava com a cidade, com o cimento, com as pedras que compunham o próprio jardim, cada vez mais desgostosa com aquilo que via. Não estava certo, todo aquele asfalto e tão poucas plantas.
Alguns casais namoravam, amigos conversavam, algumas criancinhas corriam brincando de pega-pega ou esconde-esconde, quem sabe? Sentiu saudade da inocência deste tempo, desejou ser amada e beijada por alguém como eram as mocinhas, alguns anos mais velhas que ela, que ali estavam com seus namorados.
Resolveu que queria mais natureza e foi para o bosque, aos fundos, para a casa do grito - onde, dizia a professora, fora dado o tão falado. Citado até no hino e, até onde ela sabia, uma farsa. Ali havia árvores centenárias, havia um frescor que só se encontra no meio das árvores altas, do gramado úmido. Tremeu, senão pelo frio, então pelo abandono - ao contrário do jardim, não havia pessoas ali. Todos preferiam o sol, o cimento, a segurança daquele espaço aberto, bem visível.
Ela preferia o bosque, a sombra e a casa. Tão velhinha, tão estranha com aqueles banquinhos, aquela arquitetura, aos fundos do fascinante edifício do museu. Por que sempre estava fechada? Não conseguia imaginá-la aberta, não conseguia imaginar o que podia haver lá dentro.
Pensou que certamente nada. Sabia ser uma casa tombada pelo patrimônio histórico e portanto, não devia ser aberta a visitas mesmo, para conservá-la. Em um átimo, lembrou de Stonehenge, protegida dos turistas por um cordão que tirava toda a graça da visita. Mas ali a graça estava justamente na casa fechada, em imaginar a vida ali algumas dezenas de anos atrás.
Pensou nos tropeiros passando ali, no grito da independência que poderia ter realmente acontecido - seria tão divertido! Lembrou também dos escravos e dos rituais de Umbanda e Candomblé - teriam esses nomes então? Pensou na capoeira, na dança e caminhou em torno da casa, olhando o bosque. Ouviu ruídos ao longe, o sol estava quase se pondo por completo, daqui a pouco teria que procurar o ônibus da excursão, não poderia perdê-lo nem deixar que todos notassem sua ausência.
Súbito, a porta se abre. Só um pouco, sem ranger, sem barulho e sem luz lá dentro. O vento? Alguém? Aproximou-se devagar, curiosa, para nunca mais ser vista.
Texto criado para o projeto "mini-contos", da "Fábrica de Sonhos", com limite de 500 palavras (tolerância de 50 para + ou -).
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A brisa acariciou meu rosto e me fez afastar uma mecha de cabelo dos olhos.
Havia poeira naquela brisa, mas ela estava ao chão, com as folhas secas que rodopiavam.
O céu era nublado e portanto cinzento, mas através de uma falha nas nuvens brilhava um raio de sol, atravessando a paisagem à minha frente. Um raio de sol de cenas bíblicas, aquele visível, onde partículas dançam diante dos seus olhos destacando a faixa ensolarada.
O raio de sol terminava nos teus olhos.
Não deve ter sido bem assim, deve ser a idealização daquele momento que me faz pensar desta forma. Não importa, pois eu lembro dos teus olhos ainda mais claros com a luz, uma faixa destacada da tua pele negra, brilhando quente e firme, emoldurando o verde selvagem que deveriam ser janelas para tua alma, mas para mim eram poços de mistérios, questões e desespero.
Recordo-me do teu caminhar gingado, rebolante sem ser vulgar, do teu olhar firme vindo em minha direção. Os lábios explodindo em promessas de palavras fortes, momentos inesquecíveis com desejos saciados.
Olhando você vir até mim, quase senti o calor em teus braços e o sabor do teu seio, a maciez das tuas curvas e a firmeza doce da tua pele. Sentia que podia te devorar para te possuir, devorar você para então conter seus segredos, suas revelações, para realizar em mim as promessas todas que você fazia e não cumpria.
Eu quase sentia em meus lábios o chocolate do teu corpo. Quase sentia-me cheio, estufado dos teus mistérios, como se eu não pudesse conter você em mim... imagino-me tão tomado por você, cada célula minha explodindo com a tua essência. Tudo fica claro, então, vejo que jamais poderei compreender, sentir, realmente ser um com você.
É óbvio que não aguentaria, não suportaria a enormidade do teu ser, o modo como você ocupa os espaços sem realmente estar neles e como projeta a você mesma sobre as pessoas, sobre suas personalidades, deixando que elas brilhem mas mostrando o teu brilho de forma única e inconfundível.
Então me esvazio de você, como se eu fosse um balão. Ainda te vejo caminhar até mim, mas sumindo, como uma ilusão, um efeito de cinema, uma neblina ou um véu que cobre meus olhos. E sei, sei que na realidade sou eu, eu que não vou mais ver, sentir, beijar e morder, lamber e penetrar, sorrir e amar. Pela eternidade vou ver você sumindo enquanto, novamente, a brisa acaricia meu rosto...
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