Caminhava no gramado, extasiada com o perfume das flores, os cabelos loiros cacheados brilhando ao sol, balançando à brisa - o dia chegava ao fim nos jardins do Museu do Ipiranga, em São Paulo.
Desgarrada da excursão, ela foi visitar primeiro aqueles jardins tão bonitos. Caminhou e dançou entre as flores, junto aos chafarizes e estátuas, como se fosse uma ninfa em algum ritual de saudação à natureza, à primavera ou à algum deus ou deusa. Deu a volta observando como o jardim contrastava com a cidade, com o cimento, com as pedras que compunham o próprio jardim, cada vez mais desgostosa com aquilo que via. Não estava certo, todo aquele asfalto e tão poucas plantas.
Alguns casais namoravam, amigos conversavam, algumas criancinhas corriam brincando de pega-pega ou esconde-esconde, quem sabe? Sentiu saudade da inocência deste tempo, desejou ser amada e beijada por alguém como eram as mocinhas, alguns anos mais velhas que ela, que ali estavam com seus namorados.
Resolveu que queria mais natureza e foi para o bosque, aos fundos, para a casa do grito - onde, dizia a professora, fora dado o tão falado. Citado até no hino e, até onde ela sabia, uma farsa. Ali havia árvores centenárias, havia um frescor que só se encontra no meio das árvores altas, do gramado úmido. Tremeu, senão pelo frio, então pelo abandono - ao contrário do jardim, não havia pessoas ali. Todos preferiam o sol, o cimento, a segurança daquele espaço aberto, bem visível.
Ela preferia o bosque, a sombra e a casa. Tão velhinha, tão estranha com aqueles banquinhos, aquela arquitetura, aos fundos do fascinante edifício do museu. Por que sempre estava fechada? Não conseguia imaginá-la aberta, não conseguia imaginar o que podia haver lá dentro.
Pensou que certamente nada. Sabia ser uma casa tombada pelo patrimônio histórico e portanto, não devia ser aberta a visitas mesmo, para conservá-la. Em um átimo, lembrou de Stonehenge, protegida dos turistas por um cordão que tirava toda a graça da visita. Mas ali a graça estava justamente na casa fechada, em imaginar a vida ali algumas dezenas de anos atrás.
Pensou nos tropeiros passando ali, no grito da independência que poderia ter realmente acontecido - seria tão divertido! Lembrou também dos escravos e dos rituais de Umbanda e Candomblé - teriam esses nomes então? Pensou na capoeira, na dança e caminhou em torno da casa, olhando o bosque. Ouviu ruídos ao longe, o sol estava quase se pondo por completo, daqui a pouco teria que procurar o ônibus da excursão, não poderia perdê-lo nem deixar que todos notassem sua ausência.
Súbito, a porta se abre. Só um pouco, sem ranger, sem barulho e sem luz lá dentro. O vento? Alguém? Aproximou-se devagar, curiosa, para nunca mais ser vista.
Texto criado para o projeto "mini-contos", da "Fábrica de Sonhos", com limite de 500 palavras (tolerância de 50 para + ou -).
Marcadores: conto, fantasia, horror
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