Fernando S. Trevisan - Leituras


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Fernando S. Trevisan
2007-2008
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Lendo
Na fila de leitura
Acompanho

Por: Max Mallmann
Editora: Rocco, 2003, 1ª edição
224 páginas

Nada melhor para iniciar uma nova fase - com um novo layout aqui no Leituras - do que com a resenha de uma obra excelente: "Zigurate" é o quarto livro de Max Mallmann - ainda não tive a oportunidade de ler os outros, porém isso não deve demorar agora que li este. Um nome conhecido dentro e fora dos meios de ficção científica nacionais, Mallmann é roteirista da TV Globo e um dos grandes talentos consolidados do país, com projeção internacional, inclusive.

Para escrever este livro ele mergulhou no mito de Gilgamesh - a ponto de estudar o idioma e dos capítulos abrirem com caracteres cuneiformes sumérios - entrelaçando a história do mítico rei que buscava a imortalidade com o questionamento às origens do Cristianismo. Não pense, porém, que esse é um romance histórico. Na realidade, a história não poderia ser mais moderna.

Logo de cara somos confrontados com a "sentença de morte" da protagonista, uma balzaquiana francesa que, em conseqüência de genes ruins e dos coquetéis anti-AIDS que toma desde os 20 anos, sofre do coração. "Sofre" na realidade é um eufemismo: o infarto, segundo os médicos, é apenas uma questão de pouco tempo.

Sem amigos realmente íntimos e nem amores, distante de sua mãe, Sophie - nossa quase-morta - não vê outro consolo a não ser continuar vivendo e trabalhando em sua tese de doutorado: um estudo antropológico sobre como o velho testamento bíblico é, na realidade, uma compilação de mitos anteriores ao povo Hebreu.

É nesta pesquisa que Sophie se depara com uma evidência daquilo que ficará conhecido no livro como "Bíblia dos Áureos", uma versão adulterada que dá conta da criação do homem inicialmente a partir do ouro e não do barro, e de fato idêntico a Deus e imortal. Tendo - é claro - desafiado o Senhor, o primeiro homem e a primeira mulher são amaldiçoados a viverem eternamente, sem poderem ter filhos e sendo condenados ao esquecimento por parte dos "humanos de barro", que vivem tão pouco.

Parece incrível que, em um romance com pouco mais de 200 páginas, Paris, Edimburgo e Rio de Janeiro - com criminalidade e favela, inclusive, mas de forma interessante e original - possam coexistir com imortais de ouro, mitos Sumérios e uma francesa à beira da morte? Pois eu recomendo que você leia: o Mallmann atropela tudo e ainda adiciona marqueteiros norte-americanos e políticos brasileiros!

O ritmo do texto não é frenético, está mais para um passeio em uma estrada bem pavimentada, com um bom carro: não há solavancos, as coisas vão fluindo e os acontecimentos sucedem com inteligência e criatividade. Mesmo as reviravoltas e surpresas encaixam com perfeição na trama, que por vezes acelera, especialmente para o clímax ao final.

É uma pena que, nestes cinco anos, a história não tenha dado outros frutos - eu acho que caberiam tranqüilamente continuações ou histórias anteriores no mesmo "universo". No livro chegamos a saber o e-mail de um dos personagens e somos incentivados a escrever para ele na "orelha", mas o endereço já não pertence ao autor e as iniciativas de blogs de personagens não são atualizadas desde 2004.

A edição da Rocco é ótima, bastante durável e com uma capa, cores e diagramação atrativas. Porém, quando recebi o livro fiquei surpreso com a capa: não parecia algo de FC. Confesso que, se visse exposto numa livraria, sem saber quem é o Max e o que ele escreve, nem pegaria na mão para ler a sinopse. Mas, isso sou eu, nerd e fã de fc e fantasia. Eventualmente, pode ser que o livro tenha boa saída com o público "leigo" justamente por esses atributos que, para mim, são defeitos.

Portanto, não se deixe enganar pela capa e nem pelo "rótulo" de roteirista da Globo, que pode soar mal aos ouvidos mais, errr, "literatos". "Zigurate" é literatura de qualidade e o Max não foi finalista do Jabuti - com Síndrome de Quimera - à toa. Atualização: o parágrafo anterior foi mal-escrito por mim e dá a impressão que a capa é de má-qualidade; ela não é. Veja meu comentário abaixo, em resposta ao do Fábio Fernandes.

Cabe ainda uma nota final: o livro está em adaptação para o cinema! Segundo o IMDB, a estréia deve ser em 2009 e ele está em pré-produção... e eu mal posso esperar :)

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Em Leituras
@ 3.8.08 12:30

Veja Também:
Resenha do Romeu Martins no Overmundo
Por: Flávio Medeiros Jr.
Editora: Monções, 2004, 1ª edição
232 páginas

Elogiado primeiro romance do autor, "Quintessência" faz por merecer seus fãs: é uma estréia e tanto, misturando ficção científica, investigação e suspense.

A história situa-se em Minas Gerais - e esta já é uma boa surpresa -, em algum momento após a primeira metade do século XXI, sendo que a data nunca é precisada. De cara somos apresentados a um crime horrendo, aparentemente um atentado terrorista, que termina com seu autor suicidando-se usando uma "Sacred Fire" (ou "Fogo Sagrado"), um tipo de bomba que acaba com tudo o que toca em nível molecular - isto é, o autor do atentado não pode ser identificado, pois nada sobra dele para isso.

Designado para o caso, o oficial Tom Rizzatti fica assustado: ele já viu algo muito parecido, 5 anos atrás... Deste momento em diante temos uma corrida contra o tempo, conforme novas mortes acontecem e a polícia - em última instância, Rizzatti - encontra-se pressionada para resolver o caso.

Mas não pense que o livro é um page turner, no sentido de ser um daqueles livros que você vai pulando palavras e fazendo leitura dinâmica para chegar logo ao final, de tão empolgante. Ele é empolgante, mas a história tem pausas estratégicas, onde o autor inseriu reflexões de seu protagonista (creio que espelhando idéias do próprio autor) sobre a tecnologia, a sociedade e as motivações das pessoas.

Servindo tanto para pausar o ritmo - que poderia ser alucinante - como para acrescentar psicologia e profundidade na obra - que poderia ser rasa -, os pensamentos de Rizzatti fornecem pistas sobre a evolução do mundo e do Brasil nesses mais de 50 anos no futuro, com as implicações morais e éticas decorrentes da tecnologia cada dia mais avançada.

Os personagens não são "super-reais" - exceto pelo protagonista e alguns outros personagens importantes, mas isso não é um problema de forma alguma. As referências à literatura policial noir, aos quadrinhos e à cultura estadunidense são claras, prazerosas e não comprometem a leitura para os leigos nos assuntos - não são crípticas, sendo que muitas são explicadas pelo próprio protagonista, sob a forma de piadas.

Aliás, essa é outra excelente parte do romance, que balanceia o conflito entre a tensão e a profundidade com um humor aliviante, inteligente e não repetitivo. A própria situação-chave do romance, quando começa a se resolver, é cômica - embora trágica. E nisso o romance aproxima-se ainda mais de fatos reais, a despeito de toda a super-tecnologia existente e do distanciamento temporal da história.

Algo que também me atraiu foi o modo como o Flávio consegue projetar discussões atuais para esse seu futuro - só tomando um exemplo, o Brasil tem a Polícia Unificada, isto é, a Civil e Militar de hoje como uma polícia só, mas com dois gabinetes de comando, o civil e o militar. Ou seja, a mesma zona sob um nome só - bem típico do Brasil, bastante realista e ainda assim inovador.

Alguns amigos meus citaram que o livro pede uma seqüência. Eu não acho, mas não reclamaria nada de ler contos ou novelas das "Aventuras de Tom Rizzatti" ou algo assim - mas aí é o fã de histórias policiais/detetivescas, e de ficção científica, falando.

No saldo geral, um excelente livro, um dos melhores dessa "nova geração" de autores nacionais que agora começam a ganhar espaço no "fandom" - e nas livrarias, espero eu. Não consegui encontrar o "Quintessência" para vender on-line, minha edição - com uma simpática dedicatória - foi comprada diretamente do autor na Fantasticon 2008. O e-mail para contato é: livro.quintessencia@terra.com.br. Entre em contato com ele, garanta sua cópia e divirta-se!

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Por: Cristina Lasaitis
Editora: Tarja Editorial, 2008, 1ª edição
176 páginas

Às vezes, fico pensando nas pessoas que resenharam Asimov, Clarke, etc em seu começo de carreira. Era evidente que eles teriam a popularidade e o reconhecimento que tiveram? Soube a crítica, os resenhistas de então, captar isso?

Eu tenho a sensação de que, sendo consistente o crescimento atual da Ficção Científica e da Fantasia nacionais, a Cristina com certeza terá um lugar entre os melhores escritores daqui. E resenhar o primeiro livro dela é uma responsabilidade e uma aposta.

Prematuro? Não creio. Embora tenha começado a escrever recentemente - desde 2004 - a Cristina vem consistentemente emplacando contos em concursos e coletâneas, desde a polêmica "FC do B - Panorama 2006/2007" até a "Visões de São Paulo". Ter um prefácio de Fábio Fernandes em seu livro de estréia não é para qualquer um, com certeza, então creio sim que é uma aposta, mas mais devido ao risco - ou o potencial - de um mercado como o nacional para absorver e realmente recompensar uma escritora como ela.

"Fábulas" é uma coletânea de contos, primariamente de ficção científica, mas com a fantasia aparecendo aqui e ali. É uma bem construída, inteligente e prazerosa colcha de retalhos. Alguns contos interligam-se e, ao final da leitura, a sensação é de que tudo faz parte de um mesmo "multi-verso", onde personagens tão díspares quanto um Inca medroso e sedento de poder, uma cientista inteligentíssima e otimista e um anjo "caído" podem fazer parte do mesmo universo - mas não do mesmo tempo.

Durante todo o livro fica-se com a sensação de que cada conto é apenas um ensaio, uma pequena introdução a algo maior. Como se ela estivesse apresentando pequenas histórias, para nos acostumar com seus personagens, seus cenários... e depois virem os romances desenvolvendo melhor o povo que vive no deserto, tendo que "ressuscitar" o conhecimento perdido da humanidade em velhos computadores ou as aventuras da cientista que ousou tentar matar o tempo - a Susan Calvin da Cristina.

Alguns contos já eram conhecidos do site Nova Visões ou mesmo da coletânea FC do B, e aparecem com algumas modificações aqui. Não é algo ruim - ao contrário, para entender essa "colcha de retalhos" é preciso ler tudo do começo ao fim, identificando aqui e ali onde ela mudou os textos e os interligou.

Não cabe aqui - tanto para não estragar a surpresa do leitor como por não ser o meu objetivo - mapear essas interligações, mas é algo que vai dando prazer de acompanhar conforme o livro se desenvolve. Claro que, como qualquer coletânea, existem contos mais fracos e outros excelentes. Em minha opinião, por exemplo, "Meia-noite", o décimo-segundo conto, que fecha o livro, é um dos melhores textos que já li na minha vida. Mas isso pode ter a ver com a Cristina falar diretamente ao meu "universo" aqui, com personagens que adoram estar on-line, "hackeando" e brincando com os códigos que formam os programas, a rede e os web-sites - e, neste caso, as realidades virtuais também.

Já o conto "Caçadores de Anjos", embora interessante, não captou tanto minha atenção, bem como "Irmãos Siameses". Eles não são ruins, que fique claro - apenas não alcançaram a expectativa que eu tinha antes de ler.

Há em todo o livro, como pode parecer óbvio, o questionamento do tempo, das marcas de sua passagem e de quanto realmente entendemos dele - cientificamente falando - e quanto o sentimos. E talvez essa seja uma chave para entender o sucesso da Cristina - embora meticulosa com os detalhes, com a pesquisa, seus contos não estão focados na ciência, nos mecanismos fantásticos e nem em questionamentos polêmicos. O foco é nas pessoas, em como elas vivem, sentem e reagem ao tempo, aos acontecimentos - frutos do acaso? Ou de um destino?

Algo que inicialmente me decepcionou foi o modo com o a Cristina, em basicamente todos os contos, dá por certo a existência do "Destino". Em "A Outra Metade", por exemplo, têm-se a sensação de uma entrega absurda a um destino sem divindades, sem justiça ou compensação, mas ainda assim pré-definido. Porém, com o correr do livro, vemos que não é bem assim e que há espaço para o livre-arbítrio nesses mundos, mesmo que ele jogue uma parte pequena da história e tenha aparência de ser mais esperança, ilusão dos personagens do que algo real. Bom esclarecer, esta é uma "decepção filosófica pessoal", pois a autora tem todo o direito de posicionar-se como quiser em relação aos seus temas.

Um ponto a criticar é o acabamento do livro, que não é muito durável. Pelo preço de venda da Tarja - R$ 23,00 ou 25, dependendo de onde você comprar - eu esperava um "pocket" melhor acabado ou um livro de "porte normal" com o acabamento que o "pocket" teve. Embora o formato seja um acerto por ser fácil de levar no metrô, ônibus e outros lugares, o acabamento é ruim: minha edição, comprada há apenas um mês e lida por apenas duas pessoas, já está bem desgastada, especialmente a capa. O valor do livro, portanto, deveria ser menor ou o acabamento melhor, creio eu.

Se você leu esta resenha até aqui, deve ter notado que o livro me empolgou. A capacidade da Cristina de falar diretamente no imaginário, de criar descrições interessantes e ao mesmo tempo sem preciosismos desnecessários e de absorver os dramas humanos, tornando seus personagens reais, próximos, é viciante. Recomendadíssimo!

Atualização:
Faltou dizer que, para comprar o "Fábulas", o melhor caminho é acessar:
http://cristinalasaitis.wordpress.com/2008/07/17/como-adquirir-o-fabulas/

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Em Leituras
@ 30.7.08 10:00

Durante e depois de ter escrito os artigos anteriores sobre a FANTASTICON, estive em uma maratona de trabalho que não me deixou fazer quase nada mais, a não ser acompanhar as listas e blogs - e olhe lá; na seqüência fiquei bastante doente mas já estou me recuperando.

Só que, desde a publicação do primeiro artigo, surgiu a idéia de fazer um "pós-escrito" sobre a parte pessoal do evento e sua repercussão on-line. Vamos a ele.

Outras resenhas

Muita gente falou da FANTASTICON 2008. Na comunidade de Ficção Científica do Orkut, por exemplo, houve um tópico especialmente sobre ela com mais de oitenta mensagens e muitos participantes colocando fotos nos álbuns de seus perfis.

Na web "afora", algumas resenhas pipocaram, como a da Ludimila Hashimoto que, embora ela classifique como "chapada", foi muito boa: uma impressão bastante pessoal sobre o que rolou por lá, complementada com a reprodução - autorizada - do ótimo relato sobre o sábado, primeiro dia do evento, por Ivo Heinz.

Nazarethe Fonseca, escritora de "Kara e Kmam", também "resenhou" o evento em seu blog, que foi "repostado" por Alex de Souza no site "No Minuto".

Giseli Ramos também deu sua opinião sobre o evento; Fábio Fernandes por sua vez - infelizmente! - não fez um relato pessoal, mas agradeço imensamente a citação dele aos meus relatos.

Para fechar as resenhas que surgiram, o Luiz Pires do Fabulário Zine fez um artigo em três partes sobre as palestras e sobre o evento como um todo, bem interessante e com fotos: primeira, segunda e terceira (final). O Luiz conseguiu colocar em palavras a sensação que eu tinha sobre os "eventos paralelos", dos quais reclamei na primeira parte dos meus relatos, falando sobre palestras que começavam enquanto outras ainda rolavam - realmente, uma boa solução seria "intercalar eventos", sem sobrepor, como ele sugeriu.

O "lado pessoal"

Depois de honrar as outras resenhas, acho que compete falar um pouco do lado pessoal do evento. Em primeiro lugar, é sempre ótimo rever os amigos (Ivo, Cris, Octávio, Gerson, Ana, não vou conseguir listar todos) e conhecer um pessoal novo, como a Nazarethe que eu já citei, o pessoal da Hoplon (responsáveis pelo Taikodom), o Flávio Medeiros (autor do excelente Quintessência) e um pessoal da comunidade de FC do Orkut.

A cervejada de sábado a noite também trouxe papos ótimos sobre FC, o fandom atual e "histórico", projetos novos que estão aparecendo dos participantes, etc. Estavam lá o Gerson Lodi-Ribeiro, a Ana Cristina Rodrigues (presidente do CLFC), o pessoal da Hoplon que eu já citei (Tarqüínio, Maria Emília, Jacque, Roctávio), um pessoal da comunidade de FC (Huguinho, Jorge, Ricardo), Octavio Aragão, Jacques Barcia, Flávio Medeiros, Marcelo Galvão, Clinton Davisson, Aguinaldo Peres, entre outros que eu certamente devo ter esquecido.

Circulei muito pelo EIRPG, também, especialmente com o Ivo Heinz no sábado e encontrando poucos amigos - infelizmente! Será que o pessoal todo já abandonou o RPG? - um deles o Leandro R. Fernandes, colaborador do Fabulário, que estava com alguns livros que "comprei" através dele há meses (desculpe por isso!); o Richard Diegues (da Tarja Livros) e a sempre sorridente Verena Peres, entre outros.

Fiquei decepcionado com o EIRPG: nada de "grandes ofertas" e descontos, pouquíssimos livros e quadrinhos disponíveis, nenhum ou quase nenhum lançamento... senti uma queda substancial do ano passado para este, com a Devir/Terramédia "dominando" a venda de itens em seus já conhecidos "preços abusivos" - minha opinião.

Outra coisa decepcionante no EIRPG foi a proibição que o pessoal da OPELF enfrentou de vender os livros da Cristina Lasaitis e da Nazarethe Fonseca, entre alguns outros, que não estavam disponíveis por nenhum outro comerciante no EIRPG, mas que ainda assim proibiram pois o estande deles era do tipo "não comercial". Entendo que deve haver um contrato e restrições, mas eles não estavam realmente ali para fazer comércio e sim para divulgar a OPELF e conseguir arrecadar uma grana para ajudar a organização deles - tanto é assim que a organização do EIRPG permitiu que vendessem o fanzine. Se o fanzine pode, por que os livros não?

Respondendo comentários e agradecendo

Na comunidade do Orkut, o Aguinaldo sugeriu e a Ana deu esperanças de um "repeteco" das palestras em outro evento, vamos "aguardar e confiar"! O Ricardo - ainda na comunidade FC no Orkut - sugeriu que eu faça outras resenhas de eventos sobre literatura fantástica: elas virão, conforme eu participe dos eventos, e ficarão agrupadas sob a etiqueta evento.

Por fim, agradeço novamente a todos que comentaram/recomendaram os textos, confesso que não esperava a repercussão e fiquei feliz que os relatos serviram tanto para quem não estava presente - que era meu público-alvo - como para quem estava.

É isso. E agora volto com a programação normal do blog: ainda esta semana, resenha de "Fábulas do Tempo e da Eternidade" de Cristina Lasaitis e a edição #8 do "Leituras Web"! Na seqüência, resenhas de "Zigurate" de Max Mallmann e "Quintessência" de Flávio Medeiros Jr. Até lá!

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Em Leituras
@ 13.7.08 01:35

Continuando a série de artigos sobre a FANTASTICON 2008... se você chegou aqui agora, leia a Parte 1 e a Parte 2 primeiro.

"Um olhar sobre a literatura fantástica atual", Fábio Fernandes, Guilherme Kujawski, Jacques Barcia e Sérgio Kulpas

Quero iniciar este texto dizendo que é impossível dar uma descrição tão detalhada quanto a que fiz da palestra do Octavio. Em primeiro lugar, não foi uma palestra "linear", com um conteúdo específico: foi muito mais um debate aberto, com interferência constante (e geralmente positiva) do público e troca de idéias entre os palestrantes - importante dizer que não há julgamento de valor aqui.

A mesa/palestra teve início com uma longa exposição - embora de forma alguma cansativa - do Fábio Fernandes sobre o "New Weird" e o novo na ficção científica. É preciso dizer que, apesar de ser uma mesa sobre a "literatura fantástica atual", falou-se muito mais em FC e um pouco de fantasia, sendo que os outros gêneros praticamente ficaram de fora. Novamente, isso não foi ruim!

Um dos primeiros livros citados foi "Perdido Street Station", de China Miéville, autor britânico. Comparado por Fernandes com "Neuromancer", de William Gibson - autor no qual o palestrante é especialista - devido a quebrar paradigmas então vigentes na literatura fantástica. A história envolve ficção científica, steampunk, magia e mitologia; sendo um exemplo perfeito da "New Weird".

Fernandes deu continuidade a sua fala com um clamor aos escritores que busquem e criem novos referenciais além dos clássicos como Clarke, Asimov e Heinlein - sem ignorá-los, claro - no que foi secundado por todos os participantes da mesa; que é necessário ler tanto para ter referências ("e por que não absorver estilos alheios? Por que não se influenciar?") e também para não "plagiar", para realmente inovar. Contraditório? Não: é assim que tudo vem sendo feito há tempos, como bem destacou o Octavio na palestra de sábado.

Conforme a globalização avança, ainda segundo o palestrante, devemos ter mais obras inovadoras de povos que tinham sua produção "represada" até agora, como os chineses, indianos e dos países do leste europeu. Não apenas a produção, mas também os temas estão globalizados, sendo um sinal disso os livros "River of Gods" e "Brazyl", ambos de Ian Mcdonald, ganhadores do Prêmio da Associação Britânica de Ficção Científica e indicados ao Hugo Award.

Se autores britânicos podem escrever sobre a Índia e o Brasil - e o melhor, com qualidade, sem cair nos clichês - por que não podemos escrever sobre o medieval? Por que não explorar os temas, os países, o mundo? Se houver inovação, não há motivo para limitar-se.

Desta análise a conversa focou no mercado nacional, que apresenta sinais claros de melhoria. Aumentou a quantidade de livros publicados - ainda que muitos sejam clássicos antigos ou republicações, há muitos novos autores nacionais publicando. Existe um aumento de eventos relacionados aos gênero fantástico - como as mesas promovidas pela Livraria Cultura em SP - e estes têm obtido boa recepção de público, para além do "fandom". Há ainda uma sintomática movimentação on-line, com as comunidades relativas ao gênero tendo participação massiva. Novas revistas, e-zines e publicações exclusivamente on-line também surgem quase que mensalmente.

O Fábio indicou ainda uma mudança de postura, como no caso do autor Nelson de Oliveira com seu "Subsolo Infinito", que é claramente literatura fantástica, publicada por uma grande editora e com boa recepção de crítica, mas que inicialmente não "se assumia" - a velha situação, se é bom, então não é de um dos "gêneros fantásticos". A situação está mudando com seu autor aproximando-se do gênero e desejoso de republicar o livro, agora assumindo o gênero¹.

Por fim, citou que há uma "mudança dos tempos" no "fandom" e nos escritores que participam do mesmo, onde o espaço para discussões inúteis, lamentações e imposição de egos está acabando, dando lugar a produção constante, consciente e, cada vez mais, com qualidade.

Sérgio Kulpas assumiu então, destacando que a FC não tenta "prever" ou "falar do" futuro, mas que ela o molda. Como? Devido a conexão que o gênero tem com tudo o que acontece de novo hoje; como Verne fazia e Gibson faz até hoje: lendo o jornal diariamente, estando a par daquilo que ocorre hoje e extrapolando isso, pensando no que isso significa ou no que isso pode influenciar nos anos futuros.

Guilherme Kujawski, que é um dos organizadores da "Emoção Art.ficial 4.0" e autor de "Piritas Siderais - Um Romance Cyberbarroco", considerou a dificuldade em criar FC hoje, devido a velocidade das mudanças tecnológicas, lembrando novamente de Gibson com seus "Reconhecimento de Padrões" e "Spook Country", que ocorrem nos tempos atuais, abandonando a ficção científica especulativa, pois ela já aconteceu na realidade.

Houve também uma citação que o Kujawski fez referente a um autor que não recordo (e que não consegui anotar a tempo), mas que dizia que existem três grandes problemas que a humanidade precisa resolver: o crescimento populacional, a imposição dos valores ocidentais e o progresso tecnológico¹ e que, resolvendo-se um dos três, os outros dois resolveriam-se por si - e isso poderia ser base para muitas histórias de FC "atualmente".

Kujawski falou também do que considera um problema atual para a FC: a queda para o transcendental; a experiência fora do corpo, o abandono dos problemas e questões de agora para uma solução pós-morte. Há uma tendência para reverter isso - ainda segundo o Guilherme¹ - trazendo uma estética imanente para a arte e, portanto, para a literatura e seus gêneros.

Fábio Fernandes fez um aparte citando o Accelerando, de Charles Stross (que está disponível para download gratuito aqui, em inglês, claro) que trata de um grupo de "realizadores", de pessoas que decidem fazer algo e realmente tomam a tarefa a cabo, mesmo levando séculos para resolver. Assim, o Fábio propõe que os escritores realmente assumam a tarefa de moldar o futuro.

O Jacques Barcia, que até então havia feito apenas alguns apartes e comentários, iniciou uma descrição dos principais "sub-gêneros", por assim dizer, atuais. Iniciando pelo já citado "New Weird", caracterizado pelo surreal; pelo grotesco do corpo, como meio de questionar o real e retratando sempre a cidade, como uma forma de questionar as estruturas de poder. O New Weird teria um componente muito forte de fantasia, porém não escapista e sim entrelaçada com a nossa realidade de alguma forma que a reflita e ainda possa gerar identificação.

Na seqüência ele falou do steampunk como um gênero em alta, senão na literatura ao menos nas animações, cinema, quadrinhos e outros meios mais visuais. Não poderia deixar de ser diferente, pois o steampunk tem uma "levada" muito mais estética do que política e/ou reflexiva, desde sua criação por William Gibson e Bruce Sterling com seu "The Difference Engine". Gerson Lodi-Ribeiro, que estava na platéia, fez um aparte sobre steampunk e história alternativa, mas o Jacques consideruo que steampunk eventualmente pode ser história alternativa, mas não obrigatoriamente, por não haver (muitas vezes) um ponto de divergência bem definido. Da mesma forma, steampunk é exatamente o cyberpunk, porém historicamente deslocado, utilizando tecnologia e estética vitorianas para quebrar com a frieza do concreto, do digital.

Não creio que o steampunk seja forte como literatura, hoje. Porém é forte com certeza como "imagem", como "imaginário". A quantidade de coisas criadas em torno da estética é estonteante, especialmente nos Estados Unidos.

Outros dois temas abordados foram o pós-humanismo, que seria o fim do corpo como conhecemos, sendo algo totalmente diferente no futuro e a new space opera. O pós-humanismo "per si" gera muita polêmica, especialmente em mentes mais "cruas", mas é uma realidade já hoje: quantas pessoas não vivem quase normalmente às custas de modificações corpóreas como marca-passos, próteses e similares? As técnicas de "brain hacking" estão tornando-se constantes em publicações científicas como um debate atual que precisa ser travado. A alteração do corpo por motivos estéticos também já é bastante comum, desde implantes sub-cutâneos até modificações mais extremas como bipartir a língua.

Isso indica que a FC ainda tem sim caminhos a percorrer, mesmo no meio especulativo. Não pude deixar de lembrar de Warren Ellis e seu "Transmetropolitan", onde um rapaz deixa seu corpo para viver como uma "poeira nanorobótica", fazendo "download" (ou "upload"?) de seu cérebro, de sua consciência, para essa "nanopoeira", que ele pode manipular de qualquer forma, inclusive dando aspecto "humano". Neste ponto, todos na mesa foram a favor de boas histórias, com elementos humanos, ao invés da mera "previsão futurística", no que foram aparentemente secundados pela platéia. Outra associação imediata foi com um conto de Cristina Lasaitis, onde o ato de deixar seus "corpos virtuais", pós-humanos, para trazer a "realidade física, limitadora" traz conseqüências funestas aos protagonistas.

A New Space Opera, por sua vez, seria uma atualização de Flash Gordon e Buck Rogers (exemplos), tendo a grandeza, a conquista espacial, grandes impérios com o elemento épico e a estética como chaves para a renovação do gênero. Removendo as "princesas" e o heroísmo maniqueísta original, claro.

Ao final da palestra, fiquei com a certeza de que existem chaves para a nova FC ou mesmo para a nova literatura fantástica, sendo a principal delas a "estética". Do papel que o "design" tem em nossa vida até a "imagética" que envolve os novos gêneros descritos, em tudo a estética exerce uma força enorme, quando não predominante, como no caso do steampunk e da new space opera.

Por fim, o Jacques anunciou a revista Kalíopes (que foi ao ar no site do CLFC ao mesmo tempo que o e-zine Somnium Nº 101) e a Terra Incógnita, uma revista editada em conjunto com o Fábio Fernandes, que será primariamente publicada em inglês, visando alçar a produção nacional ao alcance mundial. Atualização: Fábio Fernandes avisa nos comentários que a revista não será, inicialmente, em inglês, apenas o blog Post-Weird Thoughts, que já é em inglês, será incorporado. Porém avisa também que os planos são de publicações em inglês no futuro, sim, o que não invalida meu comentário abaixo :)

Particularmente, não só quero aplaudir como festejar a iniciativa. Faz tempo que debato, especialmente na extinta (infelizmente!) lista da Intempol, que a internacionalização não só é uma saída para o mercado de nicho que é a literatura fantástica aqui no Brasil, como também a via mais "futurista" possível. O uso de inglês tende a difundir-se cada vez mais, sendo já a linguagem padrão nos negócios e no turismo. O lançamento de um fanzine como o Fabulário em inglês, dentro de uma feira literária nacional, apenas reforça essa impressão e o acerto da iniciativa. Sabendo ainda que eles têm diversos textos de grandes autores anglófonos para publicar, a coisa só fica melhor.

O Kulpas e o Kujawski, por sua vez, anunciaram planos de publicar livros, sendo um em conjunto e outro "solo" (do Kulpas). O livro em conjunto, ao que tudo indica, vem sendo desenvolvido há anos e trata-se de dois irmãos que comunicam-se apenas via cartas (ou e-mails?) e que refletem sobre suas vidas em ambientes totalmente diferentes, um imerso na cidade, na urbanidade e o outro em um ambiente mais saudável/bucólico¹.

Achou esta descrição da mesa muito cheia de referências, links? Sua cabeça está explodindo com a quantidade de coisas faladas, com a diversidade de assuntos? Se a reposta for sempre "sim", então eu consegui passar para você o que foi estar lá. Era impossível anotar tudo de interessante que vinha à tona! Caso contrário, fique ligado para a FANTASTICON do ano que vem e, se alguma mesa deste estilo, com algum desses caras (ou, melhor ainda, todos juntos) estiver na programação, não perca!

Aproveito para pedir desculpas pelo atraso na publicação deste relato, espero que o resultado final tenha compensado a espera!

¹ Aqui escrevo de memória e, como já faz uma semana praticamente, posso estar errado. Corrijam-me nos comentários se for o caso, por favor!

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