por Virginia Woolf, tradução de Cecília Meireles
Woolf foi realmente uma grande escritora - tendo Cecília Meireles como tradutora, tudo fica ainda melhor. O livro vem em um crescendo, utilizando cada página e cada fase do personagem como marcadores e indicadores de para onde o livro caminha.
Há algum exagero em algumas partes, um excesso de lirismo, talvez, mas até o momento a leitura não é pesada, nem deixa de ser instigante saber para onde é que vai o tal Orlando em suas desventuras.
O livro tem um pé na literatura fantástica (ou de fantasia) e outro na psicologia de seus personagens - não me admira que ela fosse leitora voraz dos russos. Todos os personagens estão nús: sob a lente de Virginia, ninguém tem segredos ou, antes, apenas os segredos que ela mesma não quer revelar, que deixa acontecer conforme o momento.
Por fim, algumas frases/passagens excelentes, que eu gostaria de marcar para relembrar:
"(...)A quem havia amado, que havia amado até ali? perguntava a si mesmo, num tumulto de emoção. E respondia: uma velha, que era só pele e ossos. Inúmeras rameiras de faces pintadas. Uma gemedora monja. Uma aventureira implacável, de lábios cruéis. Uma sonolenta massa de renda e etiqueta. O amor não tinha sido para ele mais do que serradura e cinzas. AS alegrias que lhe havia oferecido eram extremamente insípidas. Espantava-se de o ter podido suportar sem bocejos.(...)"
Pág. 22
"(...)Aqui viveram, por mais séculos do que posso contar, as obscuras gerações da minha própria obscura família. Nenhum desses Ricardos, Joões, Anas, Elisabetes, deixou atrás de si um testemunho individual, embora todos, trabalhando juntos, com suas pás e suas agulhas, seus amores e suas maternidades, tenham deixado isto.(...)"
Pág. 58
"(...)Qual o êxtase maior? O da mulher, ou o do homem? Não serão talvez o mesmo? Não, pensava, este é o mais delicioso (agradecendo ao capitão e recusando); recusar e vê-lo entristecer. Bem, aceitaria, se ele o desejava, um pedacinho pequenino, o menorzinho possível. Isto era a coisa mais deliciosa: ceder e vê-lo sorrir. 'Pois nada', pensava, voltando ao seu lugar no convés, e prosseguindo seu raciocínio, ' é mais divino do que resistir e ceder, ceder e resistir'(...)"
Pág. 86
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